Governo do Distrito Federal
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5/08/20 às 16h38 - Atualizado em 7/08/20 às 11h23

Anfíbios poderosos

Buscar opções terapêuticas que permitam o controle da infecção viral causada pelo novo coronavírus a partir de peptídeos isolados da pele de rãs. Esse é o ousado objetivo do projeto da pesquisadora Mariana de Souza Castro. Com fomento da SECTI/FAPDF, ela vai realizar o projeto “O uso de peptídeos de defesa de anuros no enfrentamento à COVID-19”.

 

“Pretendemos avaliar os efeitos inibitórios sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 do peptídeo de defesa multifuncional K[1,4,8,15];A[12,16,20], derivado do PAM ocelatina 4 isolado da rã Leptodactylus latrans, e de seus análogos peptídicos. O referido peptídeo mostrou-se ativo sobre bactérias patogênicas e sobre o vírus da dengue tipo 4 (DENV4). No caso do vírus da dengue, o peptídeo exibiu índice de seletividade igual a 59, evidenciando seletividade para esse vírus”, explica a coordenadora da pesquisa.

 

Espécime adulto de Phyllomedusa bicolor, comum na Floresta Amazônica (Foto: Camila Cristina Dourado de Souza)

Como produtos do projeto, a equipe pretende, além de identificar o possível potencial dos peptídeos para combate à Covid-19, formar pessoal altamente qualificado no tema, com a orientação de alunos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado.

 

A pesquisadora também enxerga potencial mercadológico no projeto: “Tendo em vista se tratar de uma proposta com importante potencial para o desenvolvimento de produtos de interesse farmacêutico, esperamos, ao término da execução do projeto, ter em mãos um leque de produtos que poderão atrair o interesse do setor produtivo”.

 

O projeto contará com fomento no valor de R$ 50 mil, concedidos pela SECTI/FAPDF no âmbito do Convênio 03/2020, que conta com orçamento global de R$ 30 milhões para apoiar projetos e ações de pesquisa, inovação e extensão destinadas ao combate do Covid-19.

 

Origem da projeto – O grupo de Tecnologia de Peptídeos Biologicamente Ativos do Laboratório de Toxinologia da Universidade de Brasília (UnB) – representado, nesse projeto, pelos professores Mariana S. Castro, Wagner Fontes e Osmindo Rodrigues Pires Júnior – vem se dedicando, nos últimos anos, à purificação e caracterização de peptídeos de defesa multifuncionais isolados de peçonhas e secreções de animais da fauna brasileira, assim como ao desenho racional e síntese química de seus análogos peptídicos.

 

A pesquisadora Mariana S. Castro explica que Peptídeos Antimicrobianos (PAMs) são compostos naturais evolutivamente conservados que estão presentes em muitas formas de vida, como bactérias, plantas, insetos, anfíbios e seres humanos, integrando a imunidade inata dos organismos, ou seja, atuando como primeira linha de defesa. “Servem tanto como barreiras de defesa constitutivas (substâncias naturalmente produzidas) quanto induzidas (ativadas após exposição à ameaça). Mais de 2.000 PAMs de diversas fontes já foram identificados e se caracterizam como moléculas dotadas de amplo espectro de atividades, como antibacteriana, antifúngica, antiviral, antiparasitária, antitumoral, imunomodulatória e cicatrizante”.

 

No universo de espécies possíveis para a realização da pesquisa, ela explica a escolha dos anfíbios: “A classe Amphibia é composta por mais de oito mil espécies descritas, sendo dividida nas ordens: Apoda (cobras-cegas e cecílias), Caudada (salamandras e tritões) e Anura (sapos, rã e pererecas). No Brasil, existem 1.080 espécies de anfíbios (a maior riqueza mundial em espécies), sendo 1.039 espécies pertencentes à ordem Anura. Existe um crescente interesse nesse táxon em virtude da presença de compostos químicos de grande importância farmacológica nas secreções da pele desses animais. Estas secreções também exibem grande diversidade de peptídeos com variadas atividades biológicas, tais como: inibidora de proteases, antioxidante, liberadora de insulina, cicatrizante, imunomoduladora, antiviral, antitumoral, antiparasitária e antibacteriana”.

 

A coordenadora do projeto destaca que, na composição da secreção das glândulas granulosas de anuros, existem peptídeos com ampla atividade antimicrobiana, os quais fazem parte do arsenal de imunidade inata do animal, protegendo-o da proliferação de microrganismos patogênicos. Essa classe de peptídeos têm atraído a atenção da comunidade científica como potencial agente terapêutico contra bactérias que apresentam resistência aos antibióticos convencionais atualmente disponíveis. Além disso, alguns PAMs também conseguem inibir a atividade viral ao interagir com a célula hospedeira e impedir a entrada do vírion, seja essa interação com proteínas da membrana (da célula hospedeira) que o vírion utiliza para se internaliza ou com a própria membrana da célula.

 

“Existem vários dados na literatura reportando efeitos antivirais promissores para peptídeos antimicrobianos, em especial, de anuros, evidenciando o papel de destaque dessa classe de moléculas na busca por novas opções terapêuticas no tratamento de infecções causadas por vírus. A atividade antiviral de PAMs contra vírus envelopados como os vírus da imunodeficiência adquirida tipo 1 (HIV-1), da estomatite vesicular (VSV), influenza, citomegalovírus, herpes simplex tipo 1 (HSV-1) e 2 (HSV-2), dengue tipo 4 (DENV4), da febre amarela (YFV) e da febre chikungunya (CHIKV 181/25) tem sido descrita na literatura nos últimos anos”, aponta Mariana S.  Castro.

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